SOBREVIVÊNCIA NA SELVA
Você está preparado? Respondi; “Agora acho que sim!” Mas tive que experimentar o gosto de uma situação de risco... Em 2007 produzi e participei de uma expedição na Pororoca do rio Araguari pra TBWA, Transition Production e Nissan do Japão. Foi a maior produção que a pororoca já teve em sua história. Uma parafernalha de primeira qualidade e junto equipes do EUA, Brasil e Japão.
A história era vender a imagem do carro X-Trail superando obstáculos na Amazônia e levando os surfistas, naquela ocasião Masatoshi Ohno (Japão), Jon Rose (EUA) e eu do Brasil, para surfar a onda mais longa do mundo no meio da selva. A pororoca estava recebendo inúmeras lanchas, jetskis, embarcações grandes da Amazônia, helicóptero (inteiro plotado com a marca do projeto) para a mega produção de spots publicitários, clips de marketing viral e um documentário de toda a história. Não tínhamos muito tempo para ficar na pororoca, foram apenas dois dias muito intensos em que começou com um dia perfeito; sol, sem vento, super glass e com uns 08 a 10 pés de face em certas partes do rio. As imagens ficaram impressionantes, aliás a equipe de produção era casca grossa.
Liderando as imagens aquáticas com uma câmera de cinema dentro de um blimp enorme e verde estava Mike Pricket, um dos melhores câmeras aquáticos do mundo, se não for o melhor, sendo levado por um jetski comandado pelo catarinense Dê da Barra, que junto com o lendário João Capilé fizeram a segurança de água com resgates e pilotagens pras filmagens. Mas tudo isso não foi o suficiente para me tirar de uma situação com alto grau de dificuldade. A pororoca envolve muitos riscos, é um esporte com alto grau de dificuldade!
Mesmo sabendo disso, gosto de surfar sem cordinha em algumas situações na pororoca. E foi no segundo dia de gravações que tudo aconteceu! As condições do tempo estavam horríveis. Muita chuva e vento... O helicóptero custou a sair, devido a instabilidade do inverno na Amazônia. A pororoca estava com uns dois metros de face e foi quando quatro lanchas cruzaram a minha frente para seguir o canal... As marolas do barco me deixaram numa situação delicada. Passar por um ou dois wakes tudo bem... mas quatro ficou complicado e acabei levando uma rasteira numa dessas. Foi uma queda inesperada e que acabou por testar o meu limite. A prancha foi embora na onda, sozinha, solitária, como um surfista fantasma! Nisso fiquei a deriva no meio do rio Araguari esperando resgate, flutuando no meio de mururés (plantas de rio) e pedaços de pau!
Esperava que um dos dois Jet skis que estavam na operação de resgate chegariam rápido até eu, mas passavam perto e não me viam! As ondulações me cobriam e estava sem prancha pra sinalizar a minha posição. Ou seja, sem prancha seria mais um ponto preto no rio! Infelizmente a cor da minha roupa era escura e felizmente que a roupa era um shortjhon que ajudou a boiar! Depois de alguns minutos boiando no rio sem sucesso de resgate, comecei a nadar em direção da margem direita do rio (pra quem está subindo).
Estava muito longe e revezava os estilos de nado para não cansar muito, pois já vinha surfando mais de 15 minutos sozinho numa esquerda perfeita. As vezes algumas coisas tocavam o meu corpo e dava uma desesperada, por não saber do que se tratava! Sabe-se de muitas histórias na região envolvendo animais e forças de correnteza, então ficava um pouco apavorado, ainda mais quando via uma forte chuva se aproximar. Não demorou muito e começou a cair muita água do céu.
O helicóptero que já estava saindo para minha captura teve que pousar devido a chuva, nisso tive que agüentar mais alguns minutos ou horas até que a chuva passasse. Um dos jets chegou a passar perto, mas não me ouviu berrando! Caracas.... Desespero controlado... sabiam que iam voltar, mas não sabia o tempo que deveria segurar nadando no meio de uma correnteza forte e rápida. Não podia gastar energia a toa, tive que pensar em hipóteses e alternativas para se sair daquela. Se ficasse na vala errada, poderia pegar uma correnteza reversa que iria me jogar pro oceano e as chances de não me achar seriam maiores. Já passavam 20 minutos e nada do resgate. Nessa hora passa um filme na cabeça, preferia um lugar mais confortável, mas esse é um dos preços que você pode passar, mesmo estando com os melhores equipamentos e profissionais envolvidos.
Olhava a onda cada vez mais longe e o rio começar a alisar. Sinal que devo estar boiando há muito tempo e com isso a vida selvagem voltaria ao normal... Resolvi tirar minha camisa de lycra e jogar pra cima buscando chamar atenção de alguém que poderia estar me procurando na imensidão do rio Araguari. Enfim a chuva passou e o helicóptero saiu pro meu resgate. Até mesmo a aeronave teve dificuldades de me localizar, era como um graveto no rio olhando de cima. Nas imagens de vídeo eu fiquei me procurando até que deu pra identificar um ponto agoniado no meio do rio.
Nisso os pilotos começaram a fazer manobras e voar em círculos ao meu redor para chamar atenção das embarcações envolvidas na operação de resgate. Poucos minutos depois, chegou o jetski do Corpo de Bombeiros, pilotado pelo Cabo Tavares, me colocando em cima do sled para o meu alivio. Parei pra pensar alguns segundos estirado na prancha de resgate e voltei para buscar a prancha! As lanchas que acompanharam a prancha solitária perderam de vista e mesmo varrendo toda a região, não encontramos a prancha. Uma 5’10’’ quadriquilha, perfeita para a pororoca estava perdida na selva, recolhida provavelmente pelo 3 pretinhos,
lenda do maior fenômeno fluvial da Amazônia. Como Eddie Aikau dizia: “Espero o melhor, me preparo para o pior, mas o inesperado sempre acontece”. A prancha foi encontrada 45 dias depois com diversas avarias bizarras, com mordidas de bichos, batidas de paus e outras deformações que não conseguimos identificar de como aconteceu. A aventura continua, longas ondas e Aueraloha!
Aueraloha = A fusão do Aloha do Hawaii com o Auera Auara da Amazônia. Ambos com o mesmo significado.
10/09/2011